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MINISTÉRIO DA PÓS VERDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MINISTÉRIO DA PÓS VERDADE


Mário Vieira da Silva

FBN nº 002091

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nós, habitantes do planeta azul levamos algum tempo mas conseguimos nos adaptar à Mudança de Paradigmas. Conseguimos compreender que certas crenças não se adaptavam à realidade científica e começamos a viver realmente o que sabemos ser a verdade observável, naturalmente para quem quiser observar.

Por exemplo: pensou‐se muito tempo que o sol nascia e se punha periodicamente, numa tentativa de domesticar o movimento sideral. Muitos poemas, músicas, pinturas, etc. foram produzidas sobre o tema. Hoje, porém, as regiões habitadas do planeta disciplinam suas atividades pelos períodos de luz e sombra medidas pela temperatura da luz e se abstêm de nomes abstratos como dia e noite e de medidas inúteis como horas, minutos, etc., exceto para situações estritamente científicas, mas mesmo assim os computadores contemporâneos se encarregam de avaliar distâncias e outras medidas sem importância, deixando a nossa mente livre para as considerações da existência abstrata, ou intelectual como se queira.

 

 As artes audiovisuais, que sempre se constituíram de luz e sombras e certas vibrações moleculares denominadas som, ganharam mais atenção e a criatividade floresceu.

Os apontamentos, reuniões, encontros, etc., passaram a ser marcados de acordo com determinadas circunstâncias atmosféricas.

Conceitos inócuos como felicidade, nostalgia, sofrimento, honra, saudade, amor, competição, foram gradualmente descartados por serem conceitos desagregadores, improdutivos e voláteis.

Em virtude de estarmos perdendo a guerra contra a poluição ambiental, decorrente da ausência de adequada instrução nas escolas, construímos cidades subterrâneas, autossustentáveis, servindo-nos sabiamente da tecnologia para usar a água dos lençóis freáticos. Algumas cidades inovaram no turismo e construíram grandes paredes de vidro entre os lençóis freáticos e elas passaram a apreciar uma espécie de aquário invertido: os peixes circulam em volta das habitações. Enquanto este desenvolvimento tecnológico acontece, na superfície as florestas se renovam sem interferência predatória.

 Grandes placas solares foram instaladas na superfície, com comunicação para o interior das cidades para resolver problemas energéticos. Nos tetos das cidades foram colocados grandes refletores que iluminam o ambiente e ao mesmo tempo fornecem energia para funcionamento das ferramentas eletrônicas e ajudam no cultivo de plantas decorativas, hortaliças, etc.

A temperatura da luz dos refletores é programada para variar de de 12 em 12 períodos afim de estabelecer um metabolismo regular tanto das plantas como das pessoas. Como não há visão exterior, cabos especiais foram conectados a grandes janelas artificiais que abertas revelam telas onde se projetam imagens de paisagens da superfície. As pessoas muitas vezes ficam em frente dessas pseudo janelas para assistir cenas que simulam atividades na superfície da terra, como vento e chuva, inclusive mostrando animais selvagens em seu habitat.

          Uma novidade interessante à qual ainda estamos em fase de adaptação, são os EdA, ou Espelhos de Alice. Esses espelhos são colocados prioritariamente em departamentos ou secretarias da administração. Tem a forma de grandes portas que se abrem ao comando gestual e desvendam o espelho próprio. Eles refletem as pessoas e os ambientes de forma invertida. Uma vez expostos podem ser penetrados pelas pessoas, que entram numa réplica do ambiente refletido, um mundo paralelo que, embora similar tem um funcionamento peculiar.

 No lugar da competição a solidariedade foi incentivada, o que resulta numa convivência pacífica, mesmo com outras galáxias que adotam um ponto de vista diferente do nosso.

 

 Ora, nem tudo são flores, como se dizia antigamente. Existe ainda uma certa dúvida a respeito dos conceitos de verdade e de mentira. Alguns dizem que são dois lados da mesma moeda. Isto é uma metáfora antiga pois nós não usamos mais moedas. Todas as nossas transações são feitas através de código de barras, onde sim e não convivem pacificamente; em outras palavras, verdade e mentira são irmãs consanguíneas.

 

Na nossa época, 4712, chips implantados são coisa corriqueira que simulam consciências com variadas potências de MAC (Memória Aleatória da Consciência) que tornam duvidoso o significado do vocábulo “humano”.

 

A vida nas cidades subterrâneas não eliminou o contato com outras galáxias, porém. Espalhadas em lugares estratégicos construímos muitas estações de pouso e decolagem de veículos espaciais, estruturas que parecem os periscópios dos antigos submarinos. Essas estações variam de tamanho de acordo com a capacidade da espaçonave.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preambulo

 

 

Meu nome é Intermitente Redondo, sou Inquisidor do Primeiro Grau encarregado de vos transmitir os acontecimentos narrados em seu tablete pelo Embaixador Salustiano Pretenso em sua atuação funcional .

O embaixador Salustiano Pretenso, que desde criança teve seu destino traçado pela Chefia, chega em casa após uma missã. Seu sorriso comunicativo denota uma certa neutralidade. Ao mesmo tempo que atrai as pessoas parece manter uma distância, um limite na aproximação. Para usarmos uma expressão arcaica, parece um sorriso profissional, de vendedor de veículos usados. É um sorriso que diz “eu sei mais que você”.

Ele fez bastante progresso na adolescência. Era receptivo e ao mesmo tempo curioso, qualidades essenciais para uma boa convivência na nossa comunidade. Foi então decidida a elaboração de chips bem audaciosos para sua consciência. Um rol de verdades aceitas por nossa comunidade foi incorporado ao chip. Algo que não se conformasse com nenhuma delas seria rejeitado pelo chip e considerado mentira.

               Nos módulos de memória agregados à sua consciência foram programadas variadas regras de etiqueta, várias situações governamentais, além de simulações de possíveis conflitos de convivência. Um perfeito diplomata. A Direção Geral não teve dúvidas quanto à escolha. Ele não se tornaria um membro comum da nossa comunidade pois como sua função implicaria em constantes mudanças de endereço, seus privilégios deveriam ser vastos para compensar. Tornou-se um ser quase intocável.

 Esta narrativa foi encontrada nos seus aposentos funcionais depois do seu desaparecimento. Como não tinha parentes nem amigos íntimos, este tablete preto com a famosa marca de um abacaxi dourado na sua capa preta, de grande capacidade de armazenamento, é a única coisa que temos dele para nos ajudar a desvendar o mistério do seu desaparecimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Convite

 

 

“O olhar percorre lentamente o universo estelar. A intervalos irregulares objetos luminosos atravessam a visão. Ao descermos surgem nuvens e imagens longínquas de uma floresta.

 Luzes piscam e se movem assimétrica e aleatoriamente em direção descendente.

Quando as fagulhas caíram eu estava na sala de higiene. Nem sabia que eram fagulhas, pois sua queda soava como suave xilofone. Por isso não me assustei. Pensei que fosse um passarinho robô, desses que são vendidos no shopping center da Avenida do Esquecimento. Após sair e dirigir-me ao módulo principal deparei-me com um tablete azul, que piscava em intervalos regulares em cima do meu novo sofá térmico. Pressenti uma mensagem do Ministério da Pós Verdade. Não me preocupei porque não tinha lembrança que houvesse mentido na última semana. Ao manuseá-lo vibrou e emitiu um som parecido com um lamento e apareceu uma mensagem dizendo que deveria comparecer ao Ministério da Verdade no primeiro período da aurora seguinte. Fui à cozinha, tomei um gole do meu hibernador preferido, fui aos aposentos do sono e deitei-me pausadamente no meu sarcófago ortopédico, fechei a tampa, liguei meu climatizador. e dei ordem aos meus órgãos para a rotineira hibernação sintética, que os antigos chamavam de sono reparador, pois minha jornada havia sido muito exaustiva.

Na aurora seguinte, no momento solicitado, a tampa abriu-se lentamente, uma luz azul já estava acesa e um leve e refrescante odor de amônia despertou meus sentidos. Minha roupa esperava-me de prontidão num sofá que havia adquirido num antiquário na Rua dos Ventríloquos. Tinha muito apreço por aquele sofá, era macio e amorfo, clonado, pois não tinha o suficiente para comprar um novo.

O lento movimento da aurora boreal aparecia no meu visor periscópico. Ruídos discretos de frequência cibernética sobrevoavam meus sentidos. Latidos de cachorro e sons de passarinhos agregavam-se a eles.

Vesti-me e dirigi-me ao Ministério da Verdade levando, naturalmente, o tablete que viera convidar-me. Ao chegar ao portão do Ministério entreguei o tablete à sentinela, o qual apontou-me um segurança que levou-me ao EdA, a grande novidade, o Espelho de Alice. Ao atravessarmos o espelho senti uma reconfortante brisa

Entramos numa sala enorme em tons prateados. A um canto da sala uma enorme mesa de vidro. À mesa uma secretaria ordenou-me que sentasse.

Não tenho ideia da medida temporal dedicada à espera de ser atendido, pois, como havia um bocado de material de leitura sobre as estatísticas dos enviados para uma nova etapa da olimpíada estelar Israel/Palestina, tive muitos objetos de distração. A leitura estava tão interessante e divertida que abstrai-me de tudo. De mim também. Súbito uma luz azul surge no canto esquerdo da sala. A porta do gabinete do inquisidor desliza solenemente desvendando sons minimalistas de baixa frequência que sugeriam a música dos concertos populares em voga. Pareciam sons de animais em confortável desespero.

- O Senhor é esperado agora, disse a secretária.

 

Não estava nervoso. Minha consciência, que havia passado por uma formatação no Arquivo Mestre da Célula Mater estava tranquila. Meus amigos sorriam para mim quando me viam, minhas funções metabólicas ocorriam ordeiramente todas as auroras e sempre assistia à Conversa Confortadora da emissora do Controle Global todas as noites. Considerava-me feliz segundo os padrões vigentes. Trabalhava como diplomata no Departamento de Comunicações Paralelas. Ser chamado pelo Ministério da Pós Verdade era uma surpresa. Entrei. Tudo era azul. Pela primeira vez iria ver pessoalmente o Inquisidor do Segundo Grau. Ele exalava um sorriso beatífico perfeitamente inserido no tom azul do ambiente. Uma espécie de nevoeiro pegajoso flutuava e preenchia todo o espaço. Não eram vistas cadeiras ou mesas. Seu olhar estava fixado numa imaginária linha do horizonte. Sua voz era pausada e metálica, mas de um certo modo agradável. Eu diria profissional.”

Em sua infância o Inquisidor do Segundo Grau foi deixado por sua mãe aos cuidados da Maternidade Central pois ela partiu numa missão especial nos jogos olímpicos Israel-Palestina e não sabia quando voltaria. Afim de amenizar o impacto da ausência de sua mãe a direção da Maternidade Central resolveu programar um novo módulo de memória para o infante, um módulo de caráter receptivo porém inquisitivo que permitisse a acumulação de novos conhecimentos com rapidez. Os programadores ficaram tão contentes com os resultados que concordaram, após alguns períodos de avaliação, em orientar o infante para integrar o quadro de inquisidores do Ministério da Pós Verdade quando atingisse o grau de desenvolvimento necessário. Ele já havia feito bastante progresso na adolescência. Era receptivo e ao mesmo tempo curioso, qualidades essenciais na nossa comunidade. Foi então decidida a elaboração de chips bem audaciosos para sua consciência. Um rol de verdades aceitas por nossa comunidade foi incorporado ao chip. Algo que não se conformasse com nenhuma delas seria rejeitado pelo chip e considerado mentira.

 

“- Nosso registro indica que o senhor mentiu várias vezes neste período - começou ele.

- Mas eu sou diplomata...

- Diplomatas não podem ter iniciativas como essas sem autorização explícita do Inquisidor Geral.

- Bem, na verdade eu agi como operador do áudio visual.

- Não use esta palavra em vão: Verdade. Você sempre age como operador do áudio visual?

- Não. Às vezes como produtor de amizades, que aliás faz parte das atribuições diplomáticas.

 

Ele vira-me as costas, caminha em direção oposta e com o dedo indicador indica que devo segui-lo. Chegamos a uma porta metálica que se abriu com a nossa chegada. Entramos num cubículo metálico. De um alto-falante na parede saíam recomendações: “Cuidado com as correntes de ar. Podem trazer mensagens mentirosas.” “Mentiras são vermes peçonhentos que envenenam quem as proferem”. “É correto dizer a verdade. ”

Senti-me levado por uma corrente de ar. Não sabia exatamente onde estava nem aonde ia, os trajetos eram rápidos e conflitantes. Para o lado, para cima, para baixo, acompanhados de sons frios. O tamanho do cubiculo variava de tamanho repentinamente. De repente uma parada súbita. Tive a impressão que estava em outro lugar. Podia ouvir as pulsações do meu coração acelerado, mas estava aparentemente calmo. À minha frente surgiu um copo no qual alguém depositava um pó efervescente e oferecia-me. Bebi.

- Em pouco tempo você estará sorrindo –disse o inquisidor.

- Onde estou?

- Aqui.

- O que bebi?

- Com os cumprimentos do Ministério do Bem-Estar, uma nova fórmula para um bom sorriso.

- Sorrir de quê?

- Não se preocupe. Sorria... agora sim. Que bom.

- Você não me disse aonde estamos.

- Aqui. Já lhe disse. Qualquer lugar é aqui. Você não pode estar aqui e ali ao mesmo tempo. Sempre estará aqui.

- Mas esse aqui tem nome?

- Nome?

- Uma identidade. Uma classificação.

- Ah, sim. Podemos chamar aqui de presente, se isto lhe acalma.

- Não entendo.

- Não é necessário entender. Integre-se e sentirá.

- Entregar-me?

- Não. (Pausadamente) in-te-grar. Tornar-se parte.

- De quê?

- De nós. Nós somos seus amigos. Você tem amigos em toda galáxia. E aos amigos devemos dizer sempre a verdade. Só os vermes sebosos mentem sem autorização.

 

Estava tudo um breu, exceto por alguns lampejos de luz que apareciam rápida e inesperadamente. Passos vagarosos ecoavam, acompanhados de graves vozes que pareciam recitar mantras budistas. Olhei em volta para situar-me. Deparei-me com uma frase que parecia pintada numa parede: VOCÊ ESTÁ AQUI.

A Sala de Audiências é um grande espaço, bem escura, pé direito bem alto, sem definição de cor nas paredes. Numa ponta uma pequena porta de entrada e saída. Refletores de luz azul pregados nas paredes direcionam forte feixe de luz para as 7 poltronas dos Ilustres Laureados, que estão atrás de um grande balcão semicircular de madeira escura situado em oposição à porta de entrada. A três metros de distância do balcão, pequeno púlpito direcionado perpendicularmente para a mesa dos Ilustres Laureados. Da porta de entrada vem um tapete vermelho que se direciona diretamente para a o balcão, se bifurca à sua frente até chegar nas cadeiras de cada lado. O tapete vermelho é de material sólido que reflete o som produzido pelos passos dos magistrados, os quais, ao chegar perto da mesa dividem-se em dois grupos. Sua chegada é precedida de um canto gregoriano de baixa tonalidade, o qual continua até que o sétimo membro, o presidente, o último a chegar, sente-se em sua cadeira e faça um sinal de silencio. Seus passos são mais vagarosos e solenes, irregulares mas não exagerados. Os seis vestem uma capa cor de rosa escuro. O presidente uma capa roxa. Eles se olham, sorriem, cumprimentam-se e olham para frente, para o Inquisidor do Segundo Grau e o investigado Embaixador Salustiano Pretenso. Do lado esquerdo, do ponto de vista dos magistrados, há uma janela semiaberta que deixa entrar sons de crianças brincando. O presidente faz um sinal com a mão para alguém que surge da escuridão, vai até a janela, faz alguns gestos pedindo silencio. As crianças param. O personagem volta suavemente para a escuridão de onde veio. Pausada e solene surgiu a voz do inquisidor

- Outrora expressavas solidariedade em outra língua. Agora falas esta língua contemporânea que disfarça a verdade. Porque mentes?

- Eu não minto. Só faço o que se espera de mim.

- Quem espera o que de você? Diga sua identidade que nós nos comunicaremos imediatamente com esse amigo. - Olhou fixo para mim

- Comecemos - acentuou o inquisidor, olhando para os magistrados - Recebi um memorando da Divisão Têxtil do nosso ministério. Nele consta a grave informação que paramos de produzir fios da meada. Nossos amigos diplomatas são os que mais ressentem essa falta. Temos um convidado especial hoje que, por ausência consciente do fio da meada voltou a exalar mentiras desautorizadas. Pratiquemos nossa costumeira benevolência ao sabatinarmos o amigo.

Nessa altura uma voz feminina diz: “Sente-se”. Inesperadamente surge uma cadeira à minha frente, ao lado do púlpito. Vários sons surgem, de maneira minimalista, discreta, mas perfeitamente audível, murmúrios, cânticos longínquos. E o inquisidor continua...

 

- Todos nós conhecemos o mágico e suave poder que tem a mentira, quando autorizada pelo nosso ministério...

 

Eu ouvia aquelas palavras com atenção e prazer, ao mesmo tempo que um arrepio orgástico percorria minha espinha dorsal, que permanecia ereta. Afinal, no templo da diplomacia havia aprendido a arte da tergiversação com afinco franciscano. Quando fui enviado para alguns distritos da nossa galáxia tive a oportunidade de exercitar com dignidade o falso sorriso, a palavra bonita e uma elegante empáfia. Agora encontrava-me diante de invisíveis inquisidores, levado pelo Inquisidor de Segundo Grau. E ele continuava:

 

- ... as mentiras autorizadas são aquelas que, de uma forma ou de outra promovem a boa imagem do espaço legal galáctico. Mentiras entre associados próximos corrompem e finalmente destroem o tecido social ao ponto de inviabilizarem quaisquer recuperações. Está diante de nós, Ilustres Laureados, um mentiroso contumaz. Um mentiroso que perdeu a noção da diferença entre mentira e verdade.

 

Interessante como se levavam e até hoje se levam a sério. Pensei em pedir a palavra e explicar... explicar o quê? Mentira e verdade são convenções culturais e territoriais. Certo que não dizemos aos nossos associados exatamente como uma coisa acontece, pois isso tiraria toda a graça da retórica sinuosa dos diplomatas e eliminaria a ambígua ansiedade das certezas. Dizer exatamente o que está acontecendo gerará certamente muito desconforto desnecessário. Porque não simular um bem-estar? Surpreendi-me com a transformação de sua face enérgica em beatífica.

 

-Amigo, você deve saber que seus pensamentos estão sendo captados pelo nosso USD2016. Sugiro que pense com leveza, elabore bons pensamentos e não acelere indevidamente seu...

Enquanto conversávamos os magistrados conversavam entre si, pois há muito tempo haviam abolido o advogado de defesa. Para mim era uma situação inusitada, pois era a primeira vez que era acusado de alguma coisa. Eu não sabia de que defender-me. Além do mais não estava levando a coisa toda a sério.

 

- Sinto vontade de rir.

- Ótimo.

 

Da escuridão surge alguém com um copo. Entrega-me e eu bebo.

 

- O sabor me é familiar.

- Pois. Somos uma grande família.

- Onde estávamos?

- À procura do fio da meada, não é mesmo? Do eterno labirinto de Tezeu.

- Eu prefiro o labirinto da tesão.

- Saudades, hein? Sentimentos primitivos... Há vários amigos que lhe observam neste momento... Saudade é um conceito muito antigo, sem nenhuma valia para nós, no presente.

- Eu quero saber porque estou aqui.

- Vou repetir. No log deste período consta que você mentiu algumas vezes. A mentira é um delírio muito sério, uma demonstração de insegurança que pode contaminar todo o tecido social. Era uma característica da extinta classe política de eternidades passadas. Dos diplomatas também. As mentiras atuais, algumas delas, só são autorizadas às missões diplomáticas em comunicações especiais intergalácticas.

- Gostaria de saber que mentiras são essas que...

- O senhor é inteligente bastante para saber que estivemos em comunicação com o Arquivo Central da Célula Mater e está registrado que o senhor realizou uma operação profilática de formatação da sua consciência. Embora tenhamos à nossa disposição todo o espaço temporal adequado para realizar nossa tarefa, preferimos que o senhor faça uma exposição dos motivos que desaguaram nas suas mentiras, o mais rápido possível.

- Quanto tempo eu tenho?

- Umas duas eternidades, no máximo, meu amigo. Anos luz equivalentes a uma viagem de ida e volta a Aldebarã.

- Tem mais daquele suco do riso? Não consigo me segurar.

- Ótimo.

 

O inquisidor olha para um lado e faz um gesto para alguém na escuridão. Alguém surge que me parece muito familiar. Não consegui localizar aquela pessoa, que deve ter ficado pouco tempo na minha memória aleatória. Não tenho o hábito de guardar faces na minha memória central. Algo em mim, porém, despertou curiosidade. Enquanto me oferecia o copo com o líquido marrom olhava-me dentro dos olhos. Mesmo enquanto bebia os nossos olhares não se descruzaram.

- Esta fórmula nos foi enviada por uma comunidade situada a cinco períodos luz de Alfa Centauro. São especialistas na alquimia da personalidade.

 

 

 

 

 

 

 

A Pousada

 

O Inquisidor aproximou-se de mim, colocou sua mão direita na minha nuca, sorriu, imediatamente fomos transportados a uma pousada museu. Nos materializamos em frente a uma porta de vidro emoldurada por um portal, tipo arco romano. No seu topo estava gravado SECRETARIA DA PERSONALIDADE – Pousada Bezerro de Ouro. Acima das letras douradas havia uma estátua de um bezerro de ouro. Ao abrir-se a porta nos desvendou um belíssimo jardim tropical, desses que a gente vê nos audiovisuais do museu da flora. Seres vestidos de branco, sorridentes, caminhavam lentamente como se flutuassem. Mesmo tendo lido as palavras na entrada, tive que fazer a pergunta óbvia:

- Onde estou?

- Você continua fazendo a mesma pergunta. Algum chip seu deve estar corrompido. Você está aqui. Sempre estará. O aqui poderá mudar de classificação irrelevantemente. Pode ser Pousada Bezerro de Ouro, que é a expressão do momento, mas poderá ser também qualquer secretaria. Qualquer momento é aqui e hoje. Não se preocupe. Nossa intenção é a melhor possível.

- Não fique zangado, mas você repete-se. Porque estou nesta pousada?

- Você sabe muito bem. Não faça as coisas difíceis. Venha comigo.

 

O inquisidor retira do bolso um pequeno comunicador, diz 27, que liga o aparelho e uma luz vermelha pisca.

- Vinte e Sete.

- Olá, 300A, há quantos azimutes!

- 300A está em casa cuidando da esposa. Sou o 300.

- Ela está melhor?

- Sim. Que sabes da Ayahuasca?

- É um chá feito da fervura de um cipó e de uma folha. Criação indígena de remotas eternidades. Era muito usado no autoconhecimento e para algumas farrinhas. Depois foi comercializado e transformado em religião, numa época chamada de nova era, quando começou a decadência das religiões tradicionais.

- Aqui na pousada há ayahuasca. Nunca bebi mas acredito que seja benéfica para o nosso irmão diplomata. O que você acha?

- Depende da sinceridade do sujeito. Nada é garantido.

 - A questão da sinceridade depende de outra secretaria. Temos em mãos nosso diplomata, cuja patologia inclina-se para a pequena e constante mentira, àquela referente à grande insegurança.

- Claro. A questão da sinceridade ainda existe... Essa patologia era comum em outras eternidades, considerada uma coisa aceita culturalmente, muito comum as pessoas mentirem entre si para evitarem confrontos inúteis.

Como estava maravilhado pelo cenário e curioso a respeito dos seres risonhos que observava, escutava a conversa do inquisidor, mas não prestava muita atenção ao conteúdo. Quando voltei a atenção para o inquisidor ele me apresentava um dos seres risonhos que me oferecia um pequeno cálice com um líquido marrom. “Pode beber”, ele disse. Engoli o líquido de uma lapada só. Os dois ficaram calados observando-me. Em pouco tempo comecei a sentir pequenos enjoos. O ser sorridente botou a mão no meu ombro e disse

 “Não se preocupe, estamos aqui para lhe ajudar. Relaxe e deixe qualquer coisa acontecer. Você vai passar por um processo de limpeza muito bom. ”

 Comecei a andar devagar, sem rumo certo. Em minha volta apareceram várias pessoas sorridentes. Uma me ofereceu uma cadeira para sentar. Senti que algo queria sair de mim. Dei então minha primeira golfada de vômito. Baixei a cabeça. Senti grande calafrio no corpo. Alguém me amparava e não me deixava cair. O processo de vômito continuou por um tempo que me pareceu naquela época muitas eternidades. Parecia que tudo que existia dentro do meu corpo iria sair deixando só os ossos e a pele. Quando finalmente descansei dos espasmos senti meu corpo leve. Não sentia mais o mal-estar mas percebi que o chão tremia. Não conseguia ficar em pé. Deitei-me no chão, mas não consegui ficar deitado muito tempo pois deitado a cabeça girava muito rápida e sentia que iria perder a consciência. Levantei-me. Andava como estivesse num veleiro durante numa tempestade. Apesar de toda insegurança não senti medo. Estava em outro estágio da minha consciência. Tive consciência dos sons da floresta. Afinal, estava num jardim tropical. As pessoas em volta eram feixes coloridos de pontos de luz. Me senti bem. De repente um estrondo monumental atrás de mim. Virei-me e meus olhos abriram-se tanto que doeram. À minha frente estava aquele famoso cogumelo que era a primeira explosão atômica perpetrada por um povo contra outro. Hiroshima. Sentia um vento forte me empurrando, mas eu resistia. Uma nuvem negra escureceu o jardim. Chorei. Do meio da escuridão surge uma menina nua, toda queimada, gritando. Desapareceu. Muitas imagens iam e vinham sem cessar, umas não conseguia identificar. Vi inúmeros esqueletos humanos em valas comuns. O barulho era ensurdecer mas consegui distinguir trechos de música que temos nos nossos museus, chamados de cantos gregorianos. Vi um monge budista imolando-se em praça pública. Todas essas imagens para mim duraram várias eternidades. De repente vejo-me sentado numa cadeira, pessoas que me olham, sorridentes. Esboço um sorriso. Levanto-me e constato com grande surpresa que não estou cansado. Pela luz ambiente verifico que começa uma nova aurora. Estou com fome. Estou tonto, como estivesse bêbado. Cambaleio. Olho em volta, carente, interrogante. O inquisidor põe a mão no meu ombro.

 

- Nada que preocupe. È só a inevitável sensação de um cadáver chamado passado. É como uma névoa fria na espinha dorsal. Você está vivo.

À medida que o inquisidor fala a escuridão toma conta e cambaleio quando escuto grande explosão. Meus olhos não resistem ao clarão provocado pelo choque de um avião contra uma edificação antiga. Um som contínuo e frio cai sobre mim. Consigo balbuciar algo.

- Que barulho é esse?

- Chuva.

- Chuva?

- É um processo metabólico do planeta azul.

- Onde estou?

- Aqui

 

Não consigo distinguir os sons. A tal da chuva, muitas vozes ininteligíveis. Do cerne da confusão sonora uma frase sobressai:

“Companheiro, não sei de nada”.

 Abro os olhos cautelosamente e imagens de lugares que vi no museu de outras eternidades voam na minha frente. Big Ben, Torre Eiffel, Taj Mahal, Kremlin, Estátua da Liberdade, Brasilia, Cristo Redentor. Pesado frio invade-me. Tremo sentado na cadeira e desperto de algo parecido com um sonho. Vejo o inquisidor, sorrio e pergunto:

 

- Voltei ao passado?

 

- Não. Não se volta a nada. Isto é memória genética. Você não acreditou que poderia transformar-se num novo ser humano. Seus genes apegaram-se ao sistema da mentira, ao sistema das campanhas eleitorais, da governabilidade.

- Campanhas eleitorais?

- Eram períodos que seres humanos competiam para emitir a maior mentira, convencer a maioria desinformada e conquistar poder. Quem tivesse maior poder econômico poderia martelar uma mentira dez mil vezes que ela tornar-se-ia uma verdade palatável. Você, como se sente?

- Sinto um fervilhar agradável na minha espinha dorsal. Há quanto tempo estou aqui?

- Sempre.

- Como, sempre?

- Números não dizem nada. Você apegou-se ao sistema da mentira, resistiu à impermanência sideral e cristalizou-se numa falsa eternidade baseada em códigos religiosos e numa tal governabilidade.

 

Alguém se aproxima. Ouço os passos. Viro-me, mas não vejo ninguém. Este ser invisível pergunta:

- Como está ele? Vamos para a câmara da verdade?

- Ainda não. Precisa de uma boa limpeza e imunização com kampô. Na pousada existe uma boa criação de sapos.

 

O inquisidor vira-se para trás e alguém lhe dá uma pequena lata e uma colher. Ele mergulha a colher na latinha e extrai um pó marrom escuro e fala, ao aproximar a colher do meu nariz:

- Vamos fervilhar a espinha mais um pouquinho? Inspire fortemente e não tenha receio. Isto é um excelente rapé dos indigenas hunikuin de algumas remotas eternidades.

 

 Inspiro. O efeito é imediato. Continuo inspirando involuntariamente como se inflasse. Meu desejo é esvaziar imediatamente. A concentração é forte e incontrolável. Ao espirrar vejo tudo em volta afastar-se. Perco os sentidos. Ou será que adiciono mais sentidos que não conhecia? O som do meu espirro cresce como uma avalanche sonora e passo a navegar um furacão. Não consigo ficar em pé. À minha frente vejo casas, pássaros sem asa, colidindo com outras casas, ondas marinhas arrastando árvores, carros, gente. Caio, levanto. Procuro abrigo e não acho. Tudo resultado do som do meu espirro. O vento e o som dão uma trégua após indefinido espaço de tempo. Levanto-me, sacudo a poeira e olho em volta. Tudo quieto. Tudo em ordem. Estou perplexo. O inquisidor pergunta:

 

- Tranquilo?

 

Não sei o que dizer. Estou constrangido. Esboço um sorriso, abro os braços e só consigo dizer:

 

- Pois é.

- Ótimo.

- Rapé poderoso.

- Vem dos antigos hunikuin. Eles não mentiam. Eram limpos. Este rapé ajuda a botar as mentiras para fora.

- Que mentiras?

- Vamos começar tudo de novo? Isto começa a ficar cansativo.

- Mas eu não minto.

- Se nós dissermos quantas crianças entraram na escola e não dissermos quantas saíram estamos mentindo. Meia verdade é uma mentira.

- Vai me dizer que nunca mentiu, nem para seus filhos... Há horas em que a verdade não pode ser dita. Sinceridade às vezes é muito chocante. Você não acha?

- Você confessa de uma maneira muito desajeitada. Você não está num tribunal, mas pode chegar lá.

- Tribunal? Ainda existem aqueles capas pretas?

- Falo do Tribunal da Consciência, que se reúne em cada primavera do organismo Terra. No Tribunal da Consciência você mesmo se acusa e se defende, suas descobertas são as suas sentenças. Se não se acusar vagará no éter eternamente, como no antigo purgatório cristão.

- E se não quiser acusar-me?

= Ficará defendendo-se por quantas eternidades se desenrolarem na nossa conjuntura de galáxias. Como diziam os antigos cristãos, tomará purgantes espirituais que o deixarão fraco e vegetativo.

- Não tenho medo do desconhecido.

- Você vai gostar do tribunal.

- Você está falando do Apocalipse?

- Não. Isto é uma falácia cristã. O Apocalipse representava-se como o fim de tudo. Nos administramos a impermanência, um novo começo de uma consciência limpa que poderá, como um espelho novo e limpo, refletir corretamente o espaço temporal em que habitamos.

- Como se administra a impermanência?

- Não é o momento para explicações.

 

 

 

 

 

 

 

 

A Audiência

 

Estava calmo. Embora sentisse muito frio, sentei-me confortavelmente numa cadeira de madeira. Olhei em volta e não vi ninguém. À minha frente, obscurecidas por um estranho nevoeiro, sete cadeiras de espaldar alto, estilo bem antigo, alinhavam-se numa área iluminada. À minha direita senti um rumor de passos vagarosos. Virei-me e vi a solene chegada dos Ilustres Laureados. Eram seis, agrupados dois a dois como se conversassem. Todos envergavam uma capa preta sobre os ombros. Sorridentes, gestos teatrais, andavam em direção às cadeiras. Não consegui precisar suas idades. Sentaram-se. Uma cadeira ficou vazia. Difícil ver suas fisionomias, pois movimentavam seus os rostos de um lado e de outro a mudar constantemente suas expressões faciais. Um pareceu-me mais um sapo, com sua abertura horizontal em forma de boca. Este era o chefe, ou parecia, com sua atitude. Sentou-se na cadeira central. Senti um toque no ombro. Era o inquisidor que sugeria que eu levantasse. Aquele que parecia o chefe olhou para um e lado e para outro e todos pararam seus movimentos e olharam para mim. O sapo chefe levantou o dedo indicador para o alto e apontou para o inquisidor, que fez uma vênia e começou:

 

- Temos à nossa frente um indivíduo exemplar que carrega em si a potencialidade de muitas eternidades. Por razões ainda desconhecidas, entretanto, apresenta uma consciência fragmentada composta de várias instâncias de linearidades viciosas e viciadas. Linearidades essas que se digladiam, se auto anulam, se auto anulam e se regeneram de forma desordenada. Fizemos já uma tentativa de desfragmentação, com resultados inconclusivos. Dentro de si carrega o germe do medo...

- Fantástico! É sério mesmo –pensei.

...O medo que destrói tudo, como destruiu várias civilizações da antiguidade. O medo que constrói os chamados heróis. – Aproxima-se do sapo chefe e como se segredasse, mesmo falando alto

 – Acho que o DNA dele está corrompido.

- Não pode ser mais claro?

 

- O inquisidor abriu a boca mas nenhum som foi ouvido. Põe a mão dentro do casaco, ajeita alguma coisa, sorri e fala

 

- Continuando...

 

O som sai muito agudo, distorcido. Eu sorri. Naquela altura eu ainda estava de bom humor. Ele ajeita o casaco de novo e tenta falar mais uma vez.

 

- Desculpe. Onde estávamos?

 

Eu não perdi a oportunidade.

- Agora te peguei, chefe. Aqui. Estamos aqui... tens que ir à pneumologista digital.

 

Após risada geral dos Ilustres Laureados, somos surpreendidos por uma gordinha simpática.

 

- Peço singelas venias pela interrupção, Ilustríssimos. Este é o momento de uma reflexão espaço temporal em homenagem ao informante anônimo. Apenas umas pequenas respirações angustiadas e estaremos de novo em pleno funcionamento.

 

Diante daquela situação decidi que deveria ir imediatamente à Secretaria de Memórias Futuras. Embora não existissem edifícios prisionais, me sentia numa prisão virtual. Tinha que encontrar Alice. Ela teria minha configuração original. Eu teria que voltar a algumas eternidades atrás, percorrer aqueles continentes judaico-cristãos e me reconfigurar. Teria que voltar àquela pousada do Bezerro de Ouro e fazer contato com os resquícios de Alice. Por coincidência Alice era também o nome de minha mãe, algures. Enquanto organizava minha memória aleatória e pesquisava pensamentos mais antigos, escutava o discurso do inquisidor.

 

- Excelências, não tenho a pretensão de elaborar pensamentos condenatórios concernentes a este membro de nossa etérea comunidade. Venho com ele a vossa ilustre presença para solicitar compaixão galáctica, reabilitá-lo como membro de ideias produtivas, de sonhos enriquecedores. Ele mentiu e não tem consciência disso. Ele acha, como em eternidades distantes, que era normal que embaixadores mentissem. Época em que a maior mentira tornava-se a grande verdade.

 

A urgência apoderava-se de mim naquele instante. Onde poderia encontrar Alice? Pensei. Sorrateiramente tentei usar meu comunicador.

 

- Olá F171, você sabe onde posso encontrar Alice?

- Você entrou na frequência médica. Aqui é o F22. Modele bem sua voz e tente de novo.

- Obrigado, amigo. – Temperei minha garganta e tentei de novo – F171, F171, frequência jurídica? Frequência jurídica? Será que estão de recesso? Alô, Secretaria dos Desejos Inconsúteis?

 

De repente meu comunicador começou a fazer uns ruídos estranhos. Coloquei-o junto ao meu ouvido disfarçadamente, como se descansasse a cabeça. Os ruídos tornaram-se leves ondulações que iam e vinham. Pressenti novidades. Senti-me ligeiramente tonto. Algo importante estava acontecendo. Enquanto isso o inquisidor continuava falando. A escuridão tomou conta de minha visão. Algo me empurrava e sugeria que olhasse para a esquerda, desviasse o olhar do salão. Minha visão estava embaçada. O horizonte clareou levemente e imagens de flores desfilavam no meu limitado campo de visão. À medida que aquele cenário se movia em minha frente novos objetos apareciam. Reconheci retratos numa parede coberta daqueles papeis de parede que vemos nas gravuras expostas no museu. Súbito era eu que percorria com o olhar aquele ambiente que consegui identificar como um aposento do periodo chamado de século XIX num país chamado Inglaterra. Um gato brincava com um novelo de lã. Meu olhar foi do novelo, percorrendo o fio de lã até as mãos de uma menina, que segurava uns objetos de tecelagem manual. Subi o olhar. Meus batimentos cardíacos aceleraram. Era Alice. Seus olhos estavam fechados. Abriu-os lentamente e sorriu para mim. Em espaços variados balançava a cabeça espasmodicamente. Serenou e me fez uma vênia. Com pose de afetada menina inglesa, deu uma volta como passo de dança e, olhando para mim disse:

- Tudo que vi quando caí no buraco era verdade. Bem... a verdade foi criação do Lewis Carroll... eu sou apenas um personagem... Personagem não têm verdade. A história de ficar pequena e ficar grande não deve ser tão estranha. Vocês às vezes não se sentem grandes e às vezes pequenos? Entrar num espelho é o mesmo que voar, furar o espaço das estrelas e aparecer noutra cidade ou noutro lugar, como vocês fazem... nas suas máquinas de voar. Os universos são vários espelhos. Verdade ou mentira são só palavras. Quem for o autor determina. Acreditar é só uma opção.

 

Não sabia como digerir aquelas palavras da Alice. Afinal eu havia feito contato telepático com ela para obter ajuda para o meu caso. Enquanto a escutava olhava o gato brincando com o novelo de lã.

 

- Se você é apenas uma personagem, como me diz essas coisas? Como sabe do meu mundo?

- Eu sou a memória de Lewis Carroll. A memória tem várias faces, de acordo com o espaço temporal em que se manifesta... está em constante mutação. Atravessa tempos.

 

Enquanto os Ilustres Laureados confabulavam tomei coragem para conversar mais afoitamente com o inquisidor.

 

- Como eu dizia antes, ou melhor, não disse antes mas pergunto agora, onde está o organizador do que você chama de verdade?

- Nós organizamos a verdade. Não é uma ideia vinculada a eternidades. Tem seu período de validade. Quem for o vencedor estará de posse dela.

- Então a palavra verdade não tem sentido universal, é aplicada somente ao vencedor?

- Você pode dizer desta forma, mas a palavra vencedor também não tem sentido. Ninguém vence, ninguém perde. Não existe esta contabilidade.

- Por quanto tempo estarei aqui? Os Ilustres Laureados vão tomar alguma decisão?

- Estão esperando mais um membro. O que se evaporou não foi ainda substituído. Tenha calma.

Enquanto conversávamos sons de uma voz cantando invadiu nossas mentes.

A Verdade e a Mentira

São duas irmãs gêmeas

Registradas em cartório

Como Clara e Eugenia.

Aterraram nos juízes

Bem simpáticas perdizes

Pronta para o parlatório.

 

Juízes bem conhecidos

Estavam no Tribunal

Há muito tempo sentados

Juntos do bem e do mal,

Mas a Mentira e a Verdade

Tão risonhas nesta tarde,

Nem lhe fizeram sinal.

 

Qual delas é mais bonita

E qual é mais engraçada,

Se perguntaram os juízes

Diante da enrascada.

Sendo a Mentira gordinha

E a Verdade fininha,

A razão ficou travada.

 

Fechados em conferência

Cobertos de negros mantos,

Não sorriam nem gritavam

Mas estavam quase aos prantos

Olhando-se uns aos outros,

Inquietos como potros

No molde dos saltimbancos.

 

No voto estavam empatados

Quando a alguém ocorreu

Esperar nomeação

De um novo Zé Bedeu

Que tivesse mais coragem

De acabar com a sacanagem

Mas esse não apareceu.

 

 

Enquanto esperava uma palavra dos Ilustres Laureados tentei fazer mais um contato telepático com Alice. Em vão. De olhos fechados agucei minha concentração. O máximo que consegui, porém, foi surpreender-me com a visão de um coelho branco que atravessou rapidamente meu campo de imaginação dizendo: “Estou atrasado, estou atrasado”. Saí do meu devaneio e perguntei ao inquisidor:

 

- Já tomaram sua aguinha de coco?

- Não sei. Vou perguntar a eles. Ilustres, em que instância estamos?

 

Aquele de boca de sapo, o laureado Bocâmole, levantou a cabeça levemente, ajeitou sua capa preta, e solenemente explicou:

 

- Com fulcro nas translações ordinárias inerentes ao metabolismo galáctico, será de boa vênia acautelarmo-nos contra a ansiedade no julgamento e darmos vistas ao processo por um espaço temporal apaziguador ao ilustre relator. Após o qual certamente chegaremos à transição em julgado. Enquanto isto nos refastelaremos de paciência, esta virtude milenar dos indecisos.

 

O Inquisidor olha para mim interrogativamente. Não percebi o que queria perguntar. Perguntei se haveria uma nova audiência, pois não havia entendido o que estava acontecendo.

- Ora, cada aurora é uma nova audiência, quando o movimento estelar nos guia para impermanentes paradigmas.

- Posso voltar aos meus afazeres?

O inquisidor aproxima-se dos Ilustres Laureados faz uma reverência e murmura algo. Vira-se para mim e balança a cabeça afirmativamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Interlúdio

 

 

Finalmente apareceu

Aquele tão esperado

O famoso Zé Bedeu,

um jurista festejado.

Chegado cheio de pompa

Soprando como uma trompa,

Sentou-se bem espalhado.

 

Disse agora meus senhores

Eu vou resolver o caso,

E liquidar os penhores

Pois não aguento descaso.

A mentira e a verdade,

Plantadas na eternidade,

São plantas do mesmo vaso.

 

Neste momento um trovão

Soou atrás do juiz,

Estremecendo o saguão

E ele mesmo é quem diz:

Se é o que você pensa,

Que não darei a sentença,

Está enganado, infeliz.

 

Tudo tem o seu momento

Para tomar decisão,

para a dor não tem unguento

que cure insatisfação.

Daqui uma eternidade

Você verá qual beldade

Mora no meu coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Após aquela audiência com os Ilustres Laureados dirigi-me aos meus aposentos. Na minha volta apreciei serenamente o movimento das estrelas. Ontem mesmo uma passou pela minha janela quando eu pensava que a porta amarela estava semi fechada por causa da irrupção de fragmentos estelares que insistiram em fecundar minha imaginação. Ora, ao terminar minha higienização vespertina senti o fresco odor de tangerinas, que aceleraram minha pressão sanguínea. Comi duas delas e fui aos aposentos do sono. Surpreendi-me quando encontrei aberto meu sarcófago ortopédico. Será que alguém teria conexão direta com ele? Acalmei-me quando, ao aproximar-me dele, o odor de alfazema comunicou-me a paz que eu precisava para a meditação regulamentar do período do descanso obscuro.

 

 Quando a claridade chegou meu módulo de memória alertou-me sobre a continuação da audiência com os Ilustres Laureados. Uma morna vibração no lado esquerdo do cérebro era o sinal. Levantei-me, aproximei meu rosto do vaporizador para prepará-lo para a jornada que se aproximava. Queria estar limpo e sereno.

Entrei no espaço de higiene e fechei a porta. Tomei uma ducha, escovei os dentes, penteei os cabelos, liguei os vapores de perfume calmante e mudei a roupa, desfragmentei minha consciência Saí novinho em folha. Olhei-me no espelho e sorri.

Materializei-me na antessala do Inquisidor, cumprimentei a secretária e sentei-me. Após pequena espera a secretária anuncia que o Inquisidor me atenderá. Materializei-me na sala do Inquisidor, que portava um sorriso metálico, impessoal.

- Estamos prontos? – Diz o Inquisidor.

- Sim

Os dois entramos num compartimento metálico, retangular. Dentro não há botões de espécie alguma, apenas abertura similares a alto falantes, de onde saem as frases: “Mentir é trair a comunidade” “Mantenha-se limpo de mentiras” “Mentir é ofensa grave aos Ilustres Laureados”. O compartimento não se move, mas a sensação é de movimentos rápidos para cima e para baixo. Como se fossem mudanças de pressão atmosférica.

Os movimentos cessam, a porta se abre e entramos na sala de audiência. Silencio. A sala é ampla. Leve nevoeiro domina o ambiente. À direita, em segundo plano, uma porta se abre e grande facho de luz penetra o recinto. Dois a dois, os Ilustres Laureados fazem sua entrada. Parecem sorridentes, conversando, gesticulando. Caminham em direção à esquerda onde estão as cadeiras. Seus passos ecoam pelo ambiente como se estivessem numa catedral. À direita deles, de uma porta semiaberta, escuta-se vozes de crianças brincando.

.

Longo silencio, enquanto ouve-se o longínquo som das crianças brincando. O nevoeiro da sala move-se lentamente.

 Alguém trouxe uma cadeira. O Inquisidor a ofereceu. Sentei-me.

O chefe dos Ilustres Laureados nos olha, , abre os braços e pergunta:

- Comecemos?

- Quanto espaço temporal durará essa audiência? – Pergunto.

- Não se incomode – respondeu o Inquisidor, eles saberão o tempo necessário.

- Necessário para que?

- Para chegarmos a um transito em julgado.

- Isso já está durando uma eternidade.

O chefe dos Ilustres Laureados ouve toda a conversa e intervém:

- Em sendo o tempo uma abstração, companheiro, teríamos que simplificar sua maneira de ser notificado, ou comunicado. Era óbvio que partiríamos de uma base filosófica pois o tempo é uma germinação do pensamento. Em alfarrábios antigos encontramos expressões como “aquele momento durou uma eternidade, pensei que ela não viria.” “Pensei que aquela dor jamais passaria, pra mim foi uma eternidade.”

Os antigos tinham uma ferramenta chamada relógio que pretendia explicar nossas angústias de espera por números arábicos. Era uma tentativa fadada a um fracasso eterno, pois para cada indivíduo, de acordo com sua expectativa, um minuto, que era sexagésima parte de uma hora, segundo eles, poderia ter a consistência de uma eternidade, que para eles significava um número infinito.

Vide alguns anúncios comerciais nas televisões da época, que duravam um minuto. Após encontrarmos nas nossas pesquisas várias instâncias dessas incongruências cognitivas, chegamos à conclusão que a medida de tempo era, e deveria ser, o resultado de uma apreensão individual da realidade de acordo com sua necessidade imediata, pois, como todos sabemos a dimensão espaço temporal tem suas variações.

Resumindo, nossos filósofos cientistas decidiram estabelecer o vocábulo eternidade como uma medida de tempo para nossa civilização. Isto é uma medida arbitrária que depende dos movimentos dos astros. Mas isto é assunto para outra hora. Portanto peço que não se assustem com a menção constante da palavra eternidade pois é nela que navegamos.

Concluindo, caros companheiros, este processo pode durar algumas eternidades, de acordo com os meandros da nossa percepção.

 

Uns farrapos de ideias sobrevoam minha mente, mas meus módulos de memória parecem infectados por anacrônicas poeiras psicológicas. Preciso limpar minha memória. Não compreendo o conceito de eternidades dos Ilustres Laureados. Espero pacientemente, como humilde operador da diplomacia etérea, uma decisão dos Ilustres Laureados para que eu possa projetar minha próxima viagem.

Ao sinal de mão do Ilustre Laureado Mór o Inquisidor do Segundo Grau aproxima-se da grande mesa. Confabulam em voz baixa. O Inquisidor vira-se para mim e faz um sinal de confirmação com a cabeça. Dobra o corpo numa mesura exagerada em direção aos Ilustres Laureados e caminha em minha direção.

 

- Como está você? Acho que temos que fazer uma viagem.

- Aonde vamos?

- Vamos aos arquivos ocultos da sua consciência.

- Mas eu mudei meus módulos de memória há duas eternidades. Tenho pouca lembrança das coisas.

- Você é que pensa.

O Inquisidor retira do bolso seu comunicador e fala mansamente.

- Lotus.

Os Ilustres Laureados caminham lentamente de volta para porta de entrada. Um deles assobia um trecho do 5º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven. De repente materializa-se lentamente uma figura de uma belíssima negra, com um turbante colorido, vestida com trajes semelhantes a roupas africanas estilizadas. Ela sorri para mim e fala

- Oi.

Espero mais da bela aparição. Abro os braços como se perguntasse.

- Sou agente de viagens do Módulo Autônomo da Secretaria da Consciência. Como se sente?

- Tem viajado muito? – Perguntei com leve ar de riso.

- Sempre estou de viagem. Estou fazendo uma pequena escala nesta audiência para convidá-lo para um breve passeio pela sua consciência. Você sugere alguma rota particular? Tem alguma preferência?

- E você é autônoma...?

- Digamos que tenho autonomia, que é só o nome do módulo, uma metáfora oriunda na Secretaria da Consciência. Meu papel é fazer com que sua consciência desabroche como uma flor.

O nascimento de Lotus não foi adequadamente registrado no Arquivo Central. O grau de humanidade dela é bem alto. Fisicamente muito resistente, desde criança projetou uma imagem generosa e alegre, que mantem até o presente momento. Alguns dizem que é descendente dos primeiros seres humanos que iniciaram contato efetivo com o planeta azul, chamado Terra. Em remotas eternidades a cor de sua pele provocava instintos negativos em outros grupos que chegaram até escravizar seus descendentes para fins de lucro material. Até hoje não foi esclarecida a razão desses tenebrosos acontecimentos. Nem os deuses da época deixaram pistas para desvendar esse mistério. Hoje ela exerce a função de agente de viagens da Secretaria da Consciência em razão do seu enorme conhecimento da natureza humana. Sua função é fazer com que o indivíduo de hoje consiga viajar pelos meandros de sua própria consciência e fazer uma faxina geral para eliminar memórias e conhecimentos desnecessários. Ela está envolta numa beleza bem peculiar, diferente dos padrões chamados tradicionais. Anda e fala com suavidade, embora, se necessário, possa transformar-se inteiramente no oposto. Ainda é mistério, não temos muitos detalhes a cerca de sua origem. Seu valor, entretanto, é inegável, por isso tem muita autonomia de voo.

 

O Inquisidor ainda estava ao meu lado. Olhei para ele interrogativamente:

- Iniciativa sua?

- Sim. Precisamos, eu e você, de rearranjar os chips da sua consciência, fazer uma biopsia nela para que possamos diagnosticar a razão de suas mentiras. Alguns arquivos mortos têm que ser analisados e possivelmente eliminados. Não se preocupe, ao fim e ao cabo você se sentirá um homem novo. Confie nela.

Enquanto ele falava ela olhava sorridente para mim.

- Seu nome é Propenso, não é verdade? O meu é Lotus. – disse ela – olhe bem nos meus olhos.

- Pretenso. Embaixador Salustiano Pretenso.

- Bem. Quem é Pretenso também pode ser propenso a alguma coisa. Correto?

Eu não queria olhar. Virei-me para Inquisidor que levantou os braços, como quem dizia: “Vamos nessa, embaixador Pretenso? ”.

Quando virei para ela senti-me aprisionado. Seus olhos pareciam ir aumentando de tamanho e chegando mais perto de mim. Tive a impressão de ter visto aqueles olhos antes. Àquela altura um vento frio invadiu o ambiente, senti minha pressão sanguínea baixar e mergulhei na escuridão.

Ouvi sua voz bem longínqua: -

- Embaixador Propenso, digo, Pretenso, nossa primeira estação é sua memória primordial. Não se preocupe, ela não está no seu chip atualizado, mas no arquivo morto que os antigos chamavam de passado.

É noite, estou em algum lugar, em algum lugar numa mata escura, esquentando as mãos numa fogueira. Não sei onde estou. Dou uma olhada em volta para identificar estranho ruído. Um grande lagarto atravessa meu campo de visão. O couro do lagarto sobressai na pequena iluminação da fogueira. Devagar desaparece. A alguns metros do meu lado esquerdo sinto uma presença. Lotus observa-me com um ar de riso benevolente. Ao pegar um graveto para atiçar a pequena fogueira surpreendo-me com a textura da minha pele. Igual à do lagarto. Um ruído na mata o assustou e a mim também. Tentei levantar-me e não consegui. Como saindo de um sonho me vi sentado no chão encostado numa parede.

- Como se sente? – É o Inquisidor quem fala.

- Não sei.

O Inquisidor olha para Lotus, ao seu lado. Ela sorri e balança a cabeça afirmativamente.

- Provavelmente conectou-se com a sua memória primordial. É só o começo do processo.

Ainda não sabia o que estava acontecendo. Meus olhos abriram-se num crescendo, algo indefinível me assustou. Instintivamente tentei proteger meus olhos com as mãos, ouvi barulho de passos e gritos e de repente vi-me na frente de uma multidão que corria na minha direção. As imagens tornaram-se aleatórias e ameaçadoras. De novo vi-me sentado no chão, imprensado contra a parede, irrequieto. Quando olhei em volta lá estava ela, Lotus, que me oferece um copo d’água.

- Não se preocupe. Eu estou aqui com você. Beba um pouco dessa água.

Aquela oferta de água me pegou ressabiado. Toda vez que eu ingeria algo minha consciência sofria uma metamorfose. Eu precisava levar a sério aquela tal de viagem pela minha consciência. Me vieram à mente minhas leituras da época de estudante que falavam de consciência alterada. Me lembro que existiam formas permitidas e não permitidas para alterar a consciência. Naquela época consciência era uma palavra de significado vago, abrangente. As pessoas valorizavam muito “suas consciências”. Dizia-se, quando alguém fazia algo que não era aceito, que ele “não tinha consciência”. Hoje as coisas estão mais simplificadas. A nossa consciência é programada pelo Ministério, de vez em quando atualizada, limpa de impurezas, etc. As verdades e mentiras são estabelecidas pelos programadores do Ministério. Como sempre ajo de acordo com a minha consciência, quando acontece algum deslize a responsabilidade não é minha, é da programação. Aliás, essa estória de culpa é uma coisa muito antiga, estabelecida e difundida em grande parte do território pelos antigos cristãos. Não se aplica na nova conjuntura. Das duas uma: ou os materiais que compõem minha consciência não são de boa qualidade ou há algo dentro da minha massa cinzenta que não é afetada por eles. Pode ser que eu esteja pensando fora da estrada, por assim dizer. Em todo caso, mesmo incrédulo quanto ao “tratamento” que me davam, resolvi deixar-me levar. Mesmo porque não tinha escolha. Tinha então que agir como os peixes, dormir de olho aberto.

Tomei o copo d’água. Em seguida perguntei.

- Qual é a próxima aterrissagem?

- Excelente. Agora está agindo como embaixador. Sempre há uma próxima aterrissagem. Umas interessantes outras nem tanto. Na variedade está a riqueza.

- Isto é um cliché.

- Exatamente como a vida de um embaixador. Etiquetas e clichés, caminhos vários. Não se deixe influenciar, porém.

- Qual o próximo caminho, então?

- O caminho

do qual falo

não é trecho de estrada

nem todinho

é mera rota

prévia planejada.

O caminho

do qual falo

é fora da estrada


Ela falava como se cantasse. Naquela altura parecia que havia acordado de um grande sonho ou começando a sonhar. Sentia-me leve e descansado como uma folha de outono caindo de frondosa árvore. Sabia que estava caindo, sendo levado por direções aleatórias, sem movimentos conscientes, tranquilo, porém, sem imaginar sequer aonde iria aterrissar. O sorriso dela era a única coisa que me ligava ao momento. Notei que tudo em volta, inclusive ela, eu, meus pensamentos, estavam azulados. Como posso descrever um pensamento azulado, frio? Eu estava calmo, frio, azul. Aos meus ouvidos murmurava um mar longínquo pontilhado de gaivotas. Solidão. Solidão So li dão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOVA AUDIENCIA

Quando cheguei na grande sala de audiências eles já estavam lá. Estavam sorridentes como sempre. Cheios de pose como se estivessem na frente de câmeras de cinema.

Senhores e senhoras eu peço vênia, aparentemente um malfeitor penetrou no coração do tablete causando um estrangulamento da comunicação. Faremos uma auditoria virtual na máquina. De qualquer forma, com o pouco que temos podemos inferir que a relação do Embaixador Salustiano Pretenso com Lotus estava tomando um rumo heterodoxo, eu diria até perigoso, que poderia comprometer a nossa agente de viagens. Devo salientar, porém, que as minhas observações não passam de conjecturas, as quais são amparadas, porém, por notícias que tivemos no noticiário global da galáxia que em certos cantos obscuros está sendo ressuscitada a palavra amor. Se isso for verdade, se tiver afetado nosso embaixador teremos que tomar imediatas providências para evitar que a comunicação se espalhe pelo universo inteiro. Procurei nos dicionários oficiais e não encontrei a tal palavra. Interessante notar que Lotus menciona, numa de suas respostas ao Embaixador, que está falando de um caminho fora da estrada. Ora, que quer dizer “fora da estrada”? Se nós somos o caminho, ela fala de algo que não devemos saber. Que será esse tal de “fora da estrada”? Não tomarei seu tempo, Ilustre Laureado. Vou ordenar a auditoria do tablete. Na próxima aurora ou no mais tardar, em duas auroras voltarei à vossa ilustre presença.

 

 

 ********

 

-Foi consultado o log dos robôs encarregados dos contatos internos – disse o Inquisidor do Primeiro Grau - Nada constava que afirmasse exterior ou interior penetração no conteúdo das mensagens. Evidentemente que havia uma movimentação dos bytes, volúveis por sua natureza hipotética e invisível. Não podemos assegurar, porém, que a movimentação detectada seja espontânea ou dirigida. A pré verdade é que o embaixador Salustiano Pretenso e a Agente de Viagens Lotus desapareceram e não temos pistas que nos oriente. A Secretaria das Conclusões está elaborando um protocolo de convencimento que será divulgado em breve. Corre a boca pequena que os dois estavam tendo uma comunicação subjetiva que em linguagem chula se diz amor e que, ao tentarem escapar ao nosso controle caíram em algum buraco negro fora da nossa galáxia. A Pós Verdade saberemos em breve.

Imagina-se à primeira vista que o chip da juventude de Lotus corrompeu-se. Seus neurônios de silício não agem com a eficiência esperada, estão mais lentos. Nosso departamento de Metafísica verificou, por comunicação telepática, que Lotus foi invadida pela dúvida. Talvez por contato simbiótico com o embaixador Pretenso. Presume-se que o vírus da dúvida tenha contaminado uma parte de nossa constelação pois o protocolo publicado pelo Departamento de Metafísica contém algumas incoerências. O log do período atual está quase ininteligível.

Ainda não conseguimos localizar vestígios do embaixador Pretenso. Enviamos emissário à olimpíada Israel-Palestina mas não foi possível diálogo. Existe a possibilidade de uma atmosfera de insegurança que poderá resultar na nossa desintegração molecular. Certamente nos enviará a um buraco negro. Na corrupção do chip da juventude da agente de viagens Lotus está a Pós Verdade, o cerne da nossa civilização

O pensamento disperso viaja pela galáxia em busca de orientação da Celula Mater mas orientação não vem. Só protocolos e mais protocolos. Neste caso o melhor seria arranjamos outro embaixador. Não fui instruído na tarefa da nomeação de embaixador. Nos arquivos da Secretaria das Conclusões não se encontra uma pista sequer. O depósito de silício é interditado a nós inquisidores do primeiro grau. À primeira vista pensei perguntar-me pra que serve um embaixador se no final de contas a Celula Mater é quem tem a palavra final. O embaixador seria uma camada simbiótica de neurônios que simula a inexistente coerência do tecido existencial do que chamamos de vida. A mensagem externa vinda do infinito encontra a pele que traduz a emoção que é interpretada pela Celula Mater. Mas eu nem sei quem é a Celula Mater, em que dimensão está.

- Talvez migraram para a quinta dimensão.

-É bem possível que eles estejam num mundo paralelo. Mas qual deles? Em que época? Lotus é mestra nesse tipo de viagens. O que você acha?

-Acho que a preocupação com eles está exagerada. São só duas pessoas.

-Até acho que o embaixador é de limitada utilidade, embora tenhamos que ser solidários. Não fará muita falta. Lotus, entretanto, é como um dedo do pé. Sem um dedo poderemos caminhar mas a caminhada será mais difícil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A DIMENSÃO PERDIDA

 

Lotus e o Embaixador Pretenso estão presos na segunda dimensão, largura e comprimento. O diálogo é plano, reto, curto. O som é baixo mas se ouve, embora não se veja quem fala. Tanto largura como comprimento têm seus limites. Talvez uma ventania forte sopre com força e mova a superfície onde estão as linhas e empene os sons, ocasionando uma mudança em sua perspectiva. A visão dos personagens da segunda dimensão é sempre a mesma: linhas. A superfície na qual estão aprisionados pode ser tanto um livro, uma página de internet ou uma aquarela de um artista. Como foram cair lá eles não têm a menor ideia pois, na tentativa de guiar o embaixador Pretenso numa viagem através de sua consciência, Lotus perdeu o controle do seu poder telepático, do aspecto espaço-temporal em sincronia com o aspecto material-energético e perdeu contato com sua própria consciência. Quando forem resgatados, o que certamente acontecerá, terão perdido suas memórias e sofrerão um tremendo choque existencial ao se defrontarem com a terceira dimensão. Como se considera hoje que o tempo seja a quarta dimensão, sofrerão ainda uma imponderável tonteira cósmica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TONTEIRA CÓSMICA

 

 

 - Isto é você, Pretenso?

- Claro.

- Como se sente? Reconhece onde está?

- Não sei classificar.

- Você está aqui, bem dimensionado.

- Bem dimensionado? Que quer dizer isto?

- Sua consciência não percebe?

- Percebe o quê?

- Você está mais alto ou mais baixo?

- Não entendo.

- Acho que algo se corrompeu em você na nossa viagem.

 Você sabe de onde viemos?

- Estou curioso agora. Aonde você quer chegar?

- Já chegamos. Aliás nunca saímos. Nós estávamos procurando a

 Verdade dentro de você. .

- Ah, a verdade, algo me diz que conheço esta palavra.

- Você não se lembra que o Inquisidor de Segundo grau disse

 que você mentiu duas vezes no período entre duas auroras?

- Você está falando em códigos. Seu script está confuso. Que quer

 dizer mentir?

- Acho que você pegou a patologia do tédio. Retire seus módulos de memória, limpe-os e recoloque-os por favor. Sem memória não é possível o mínimo de lucidez.

- Você me confunde. Seu script está confuso. Quem é você?

- Será que temos de começar do zero?

 

O Embaixador Salustiano Pretenso vira-se para o lado de onde vem a voz, mas não vê nada a não ser uma linha vertical com várias gradações de claro e escuro. Ele está insensivelmente calmo. Seu raciocínio está parado no ar, não tem consciência de sua existência. Há algo familiar naquela voz, porém.

 

- Quem é você?

- Eu sou Lotus, agente de viagens da Secretaria da Consciência. Fui

 encarregada de viajar com você através da sua consciência a fim de

 fazermos uma auditoria na sua memória, no seu DNA, fazer uma

 limpeza nos seus chips para salvá-lo de vícios adquiridos em antigas eternidades.

- Ah... Lotus. Estava sonhando com uma mulher bonita, belo sorriso

 enigmático. Foi interessante. Mas foi só um sonho. Não é verdade.

- Agora recomeçamos bem. Verdade é a palavra. Se você sabe o que é

 verdade também sabe o que é mentira.

 - Claro. Sonho não é verdade.

- Vê-se que você mente, mas não sabe. Este é o fio da nossa meada.

 Ela falou com você? Como era a voz dela?

- Um pouco grave e aveludada, como a sua... bem parecida.

-

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ESTABELECIDO

 

Atualização

USD2017

 

Companheiros e companheiras, todos já estão cientes do quase misterioso desaparecimento de nossa Agente de Viagens Lotus e do Embaixador Salustiano Pretenso. Todos também sabem da importância que têm para nossa parte desta gloriosa galáxia. É imperioso que todos colaborem com a tarefa de encontrá-los ou, se eles estiverem já diluídos em outra dimensão, que nos esforcemos na pós humanização de espécimes cujas tendências sejam adequadas às nossas necessidades. Várias hipóteses foram levantadas. Uma é que tenham se perdido na segunda dimensão, por isso já encaminhamos uma força tarefa, devidamente equipada com aspiradores de consciência para pesquisar em todas as superfícies planas não só do nosso planeta, mas também em planetas adjacentes do sistema solar. É importante que todos sonhem, pois como sabem no sonho está o segredo da Verdade. É preciso não confundir, porém, mera aparência física ou estímulos sensuais com o verdadeiro sonho que não é passível de barganhas como se fazia em antigas eternidades.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 ***************

Lotus e Pretenso são produtos de uma alucinação autoritária oriunda de tempos remotos, alucinação essa que prevalece na presente conjuntura como um paradigma nefasto. Dois entendimentos diversos e antagônicos do que seja ser humano digladiam-se há muitas eternidades. Dessa luta emerge uma palavra cujo significado sofre metamorfoses várias de acordo com o vigente vencedor: Verdade. Lotus diz que, segundo relatório do Ministério da Pós Verdade, Pretenso mentiu e por isso deve ser punido, ou corrigido, com ela diz suavemente. Pretenso diz que não mentiu, embora confirme as palavras ditas, as quais para ele são perfeitamente aceitáveis num diálogo comum entre indivíduos. É a maneira comum dos diplomatas comunicarem uma ideia.

Após um período longo de tentativa de diálogo perdeu-se, no meio do caminho, o texto original que originou o convite para depor perante os Ilustres Magistrados.

 ********

- De que falamos, afinal - disse Pretenso.

- De sua consciência.

- Que minha consciência tem a ver com essas coisas que você me deu para beber?

- Esses líquidos nos permitem penetrar mais fundo do que a externa

expressão da sua consciência nos apresenta. Em outras palavras,

podemos ver seus arquivos ocultos.

- Mas eu não escondo nada.

- Eu sei que você não esconde, mas o script da sua consciência, sim.

- Minha consciência é minha. Eu sei o que tem dentro dela.

- Parcialmente. O cerne da sua consciência foi escrito por nós desde que você começou a ser treinado para embaixador.

- Espere aí. Você me ofende. Quer dizer que minha consciência é um programa feito por alguém?

- De novo, parcialmente. Existe um pedaço de você que veio quando você nasceu. Um pedaço bem pequeno, é verdade. Este pedaço é que causa o grande problema de sua adaptação à nossa comunidade. O pedaço chamado de humano, imprevisível, contraditório. Por isso temos que configurar uma consciência maleável aos nossos propósitos. A configuração dá segurança, certeza, não só a você como à nossa simetria galáctica.

- Esta conversa não está indo para lugar nenhum.

- Não temos que ir a lugar algum. Já chegamos. Precisamos nos conhecer melhor.

- Eu disse ir como força de expressão. Eu queria dizer outra coisa.

- Viu como você esconde coisas? Você diz uma coisa querendo dizer outra.

- Você é muito esperta, mas não entende a linguagem diplomática.

- Nem sempre a linguagem diplomática é apropriada. No nosso caso a sinceridade é mais importante porque a intenção é justamente achar nossa verdade.

- O que é isto? Parece que estamos voando. Você está sentido algo diferente?

- Estou. Um calor suave está penetrando o ambiente. Feche os olhos porque a luz vai ser muito forte para os seus olhos. Cubra o rosto e fique calmo.

 **

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 COMUNICADO

 Monastério da Cultura

 

Na próxima estação das frutas teremos várias atrações que trarão momentos de bem estar para nossa comunidade. Uma delas é muito especial pois nos remete a várias expressões culturais resgatadas de nossos arquivos. A chuva, uma expressão visual do metabolismo do nosso planeta, será apresentada periodicamente na nossa praça nordestina. Foi realizada com muita dedicação uma ligação tubular do lençol freático São Francisco, a qual despejará regularmente um belíssimo conjunto de gotas de água, de variada temperatura. Sugere-se que venham com roupas apropriadas. Esperamos com isso amenizar a carência de momentos de refrigério das nossas consciências.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lotus e Pretenso estão sentados no chão, encostados numa parede, completamente molhados como se acabassem de sair de uma tempestade. Pretenso cruza os braços, tremendo de frio, olha em volta e não vê nada. À sua frente está Lotus, sorridente, apesar da água que escorre pelo seu rosto. Ela sacode a cabeça e centenas de pingos d’água se espalham em sua volta. Pretenso ri, pergunta:

- Onde estamos?

- Nem vou lhe responder...

- E o próximo passo?

- Recomeçar. Está pronto?

- E se eu não estivesse... Faria alguma diferença?

- Primeiro temos que nos secar. Vamos?

Andam alguns passos, dobram uma esquina e encontram várias cabines públicas de higiene. Cada um entra em uma. Em seguida ouve-se sons aleatórios semelhantes a fortes sopros de ar comprimido. Após breve silêncio saem sorridentes, alertas.

- Há muito tempo que não lhe via.

- Como assim?

- Parece que estou lhe vendo pela primeira vez.

- Toda vez é a primeira. Não existe segunda ou terceira.

- Você é muito abstrata. Não sabe conversar direito, como gente?

- Você está surpreso com alguma coisa. O que é?

- Ao olhar você agora senti meus pensamentos embaralhados. Repentinamente. Mas você parece que foge.

- Eu sou uma agente de viagens. Cumpro meu dever. Levo meu trabalho a sério. Nós estamos aqui por um propósito. Não posso desviar-me. É importante para mim que você possa abrir sua consciência à minha busca. Procuro que tipo de verdade ou mentira você esconde. São as ordens que recebi.

- Você já teve diarreia?

- Um momento. Alguém está tentando se comunicar comigo.

 

O Inquisidor do Segundo Grau acaba de chegar à sua sala de trabalho. Sua face está fechada, pensativa. Seus movimentos são lentos. Senta à mesa, abre seu lap top, digita, olha um pouco, coça a cabeça. Súbito expressa uma face de surpresa. Lotus e Pretenso estão na tela. Lotus parece olhar para o infinito. Pretenso, mãos cruzadas nas costas, caminha olhando para o chão. “Onde será que estão? ”, pensa. A secretária aparece.

- Está quase no momento da audiência, Sr.Inquisidor.

Ele olha para ela, esboça leve sorriso, balança a cabeça em confirmação. Levanta-se e vai em direção a uma porta de aço. Aperta um botão, a porte se abre, ele entra.

 

 ******************

 

Lotus olha para o horizonte, como se pensasse. Levanta-se e chama Pretenso.

- Vamos? Temos um encontro importante.

- Onde?

- Você verá num instante.

Imediatamente se materializam na sala de audiências e vão em direção ao Inquisidor do Segundo Grau, que sorri.

- Sempre pontual. E como está nosso amigo?

- Quase.

- Parece que temos um problema. Vejo na mesa que temos dois Laureados novos. Eles não parecem muito confortáveis nas suas poltronas. Ainda não abriram a sessão.

Pretenso senta-se numa cadeira, ladeado pelo Inquisidor e Lotus. Esperam um sinal da mesa dos Laureados. Estes confabulam em voz baixa, de vez em quando olham para Pretenso. Faz-se silêncio, o presidente da mesa, o cara de sapo, bate um martelo e declara aberta a sessão e começa a falar.

- Saudações fraternas senhores. A minha comunicação hoje é breve. Dois dos nossos membros atingiram o limite de suas competências temporais e precisaram ser substituídos. Ficamos temporariamente impedidos de chegar a qualquer decisão razoável. Nossos novos membros nomeados pela sábia Celula Mater terão o espaço-tempo necessário para tomar conhecimento do processo em pauta. Tão logo isso aconteça uma nova audiência será convocada. Está encerrada a sessão.

 

Os três se entreolham. Lotus sorri. O Inquisidor do Segundo Grau põe a mão no queixo, pensativo. O diplomata Pretenso não demonstra qualquer reação visível, embora interiormente sinta-se num limbo, sem saber como reagir ao adiamento. Lotus é a primeira a manifestar-se.

- Achei bom o acontecimento. Agora teremos mais tempo para nós viajarmos. Você já tem experiência de duas dimensões. Quem sabe não poderemos conhecer a quarta dimensão. Poderá encurtar nossa pesquisa.

- Que é que isso tem a ver com o meu processo? Fui acusado de mentiroso sem razão. Até agora ninguém me diz que mentira é essa. Porque tenho que conhecer a quarta dimensão?

- Cada coisa tem a sua dimensão, seu contexto, Pretenso. – Vira-se para o Inquisidor. – Preciso ficar mais alguns períodos com Pretenso.

- Concordo. Se precisar de alguma coisa sabe onde estarei.

- Compreendido. Vamos, Pretenso?

- Pra onde?

- Vamos é força de expressão. Entremos em nós mesmos.

- Isto está muito tedioso.

- Você está compreendendo muito bem. O tédio é o ponto de partida para ação. Prolongado oxida os pensamentos, que nos leva a uma rotina chamada normalidade. Pense num ambiente que lhe seguirei.

Lentamente surge diante deles o vasto universo. Sons minimalistas de várias frequências surgem e desaparecem vagarosamente. Aleatoriamente objetos celestes atravessam o campo de visão, de várias velocidades e distâncias. Calma inabalável domina a paisagem celestial. A voz de Lotus, calma e firme, é ouvida.

- Pensou bem. Este é o silencio da verdade. Está vendo como nada está parado?

- E daí?

Lotus olha demoradamente para Pretenso. Um quase sorriso se esboça. Fecha os olhos e respira fundo. Pretenso passa a mão na cabeça, como se pensasse. Muito longe um sino de igreja dobra. Cena de funeral de alguém famoso. Multidão segue o féretro. Pretenso fala.

- Alguém andou editando minha memória.

- Como se sente?

- Oco. Entretanto reverberam imagens desconhecidas dentro de mim.

- Não se preocupe. O interior de sua cabeça é vastíssimo. Jogue fora essas imagens desconhecidas e olhe para mim. O que vê?

- Não vejo. Eu sinto.

- O quê?

- Me sinto inadequado. Não sou deste mundo.

- Isto é fácil de resolver. Em qual mundo gostaria de estar?

- Posso escolher? Que ótimo. No seu.

- Sou apenas uma agente de viagens. Vivo na multidão dos mundos. Não me apego a nenhum deles. Em algumas partículas de espaço-tempo estarei reciclada em outra dimensão.

- Mas eu sou embaixador, estou acostumado a viagens. Viajaríamos juntos.

- Não será possível. Ainda temos uma audiência com os ilustres laureados.

 

                                                           ***********

 

 

 

 

A sala de audiências está silenciosa. Através da janela aberta, porém, ouve-se sons de crianças brincando. Sete Laureados estão sentados à grande mesa de audiências. Ao centro, Ilustre Laureado Bocâmole Sênior. O Inquisidor do Segundo Grau, o Embaixador Salustiano Pretenso e Lotus sentam em poltronas colocadas em frente ã mesa dos Laureados. Atrás, na plateia, algumas pessoas vestidas de preto. O Ilustre Bocâmole dá início à sessão.

- Muito digno Inquisidor do Segundo Grau, Respeitada Agente de Viagens Lotus D. Souza, Magnifico Embaixador Salustiano Pretenso. Demais integrantes deste solene evento. Pretendemos, agora, chegar a uma definição verdadeira sobre o relato do Registro Central que noticiou o fato de que uma mentira foi achada nos arquivos proferida pelo nosso Magnifíco Embaixador. A questão é seríssima. Não há dúvidas de que uma mentira foi proferida pelo nosso querido embaixador, que tantos bons serviços tem prestado ao nosso planeta. Nossos peritos não nos disseram ainda o teor da mentira, portanto não podemos chegar a conclusões açodadas. Temos que ser compreensivos com a palavra do nosso querido embaixador. Os relatórios periódicos relacionados ao embaixador Pretenso demonstraram corriqueiramente seu comportamento verdadeiro e respeitoso. Sem dados que identifiquem o tipo de mentira proferido pelo embaixador não temos outra saída senão aguardar o resultado da biópsia. Por enquanto nada pode ser decidido. Com a palavra o Ilustre Laureado recém chegado ao nosso convívio.

- Muito obrigado, ilustre chefe deste conclave. A todos os ilustres presentes meus cumprimentos. Confesso que não estou a par do conteúdo desta investigação, mas minha experiência e meu conhecimento dos parágrafos do nosso Código além, naturalmente, do grande respeito que nutro pelo modus raciocinante do nosso Ilustre líder de bancada, estou inclinado a acatar vosso parecer. Uma pessoa da qualidade moral do nosso embaixador não pode ser diminuída com uma simples acusação de mentiroso. Nós todos sabemos que só os vermes peçonhentos mentem. Nossa sociedade tem a Verdade como o pilar do nosso convívio. Um embaixador não mente, a não ser autorizado expressamente quando em missão galáctica. Portanto, senhores e senhoras, como já disse, voto pela inocência do Embaixador Salustiano Pretenso.

 

O Embaixador Salustiano Pretenso sussurrou ao Inquisidor de Segundo Grau se podia usar da palavra. O Inquisidor chegou-se até a bancada dos Ilustres Laureados, confabulou com o mediador. Após alguns segundos virou-se para o Embaixador Pretenso e fez sinal de positivo. Pretenso levanta-se, respira fundo, olha em volta e começa:

- Senhores, é com muita tranquilidade que lhes falo. Aprendi muito, desde cedo, quando acolhia os ensinamentos dos mestres e as ferramentas implantadas na minha realidade física, que a Verdade é a fonte do saber, da vida e da morte, o que nos mantém como povo. Minha consciência sempre foi cuidada com muito carinho e respeito pelos nossos mestres dos algoritmos básicos. Orientado por esses ensinamentos, dei uma varredura na minha memória para tentar identificar algo parecido com uma mentira, já que o Registro Central me acusa de mentir. Os algoritmos da minha memória principal são, como diz a própria memória, aleatórios. Posso atestar que não menti conscientemente, mas que algo parecido com uma mentira possa ter sido expressado em algum dos meus relatórios. Lembro-me agora que, ao preparar-me para minha viagem a Alfa Centauro, aos operadores de moléculas encarregados do meu tele transporte ocorreu a hipótese de que haveria uma possibilidade de insucesso na reconstrução da minha identidade, na chegada ao destino, em virtude da enorme distância que minhas moléculas teriam que percorrer até o momento da reunião celular. Ainda não haviam feito uma operação de tal envergadura. Temiam que eu desaparecesse mesmo antes de chegar lá. Confrontado com essa possibilidade cheguei à conclusão que não estava na hora do adeus ao meu querido planeta. Decidi, já que uma viagem estava planejada, solicitar que me enviassem à Lua, teria que visitar alguns amigos e resolver algumas pendencias. Concretizada a operação, retornei. Entreguei meu relatório sem rasuras ao Registro Central. No relatório constava a viagem a Alfa Centauro. Não mencionei que estive na Lua. Não acho isso uma mentira, mas uma simples negligência burocrática, que pode até ser classificada de Mentira de Segundo Grau segundo os nossos códigos diplomáticos, a qual não é passível de punição. Talvez um pequeno puxão de orelha. Acho que não é necessário dizer mais nada. Obrigado pela atenção.

 

O Ilustre Laureado Bocâmole não se manifestou verbalmente mas apontou para mais um laureado, dando-lhe a palavra.

À medida que falavam seguiam à risca a mesma linha de raciocínio, inclusive um adolescente recentemente escolhido para preencher uma vaga de um Laureado que havia esgotado sua utilidade e havia sido posto no limbo etéreo do esquecimento, discorreu sobre o assunto alegremente, rindo timidamente às vezes e agradecendo ao seu antecessor. Salustiano Pretenso tudo presenciava de uma maneira absorta. Não ouvia o som das palavras, só os gestos e expressões faciais daquela alegre pantomima. Pelos gestos sabia a opinião de cada Laureado. Só um discordou. Sua face era bem triste. Podia-se dizer até um pouco zangada. Olhava Pretenso com seriedade e firmeza. Foi escutado com respeito, mas com olhares surpresos dos presentes. Suas palavras não foram gravadas, por isso não as reproduzo. Pretenso sentia-se leve, como se flutuasse. O silêncio reinou no ambiente, exceto pelo som das crianças brincando, que esteve sempre presente durante toda a audiência. O Inquisidor, Lotus e Pretenso se entreolhavam. Na bancada os Ilustres Laureados endireitavam alguns papéis, se entreolhavam e riam, sussurrando sons ininteligíveis. O Ilustre Bocâmole levantou os olhos para os três.

 

- Esperem por nossa comunicação. Talvez tenhamos uma audiência conclusiva em breve. Alerto-vos para o seguinte fato, porém: embora grande parte dos senhores e senhoras já tenham manifestado desejo de punição, isto não acontecerá, pois acarretaria um desarranjo considerável no arcabouço emocional da nossa comunidade espacial. Temos que proteger os nossos. Afinal, o ilustre Embaixador Salustiano Pretenso investiu razoável quantidade de espaço-tempo na sua formação profissional, o que lhe empresta grande importância como individuo quase humano. O que é tão importante numa simples mentirinha? Como já disse, esperem por nossa comunicação.

 

Os Ilustres Laureados saíram da sala. O inquisidor despediu-se, pois tinha tarefas a executar. Lotus e Pretenso estavam calados, pensativos.

 

 

 

 

O Comunicador Global leu, na Aurora seguinte um comunicado.

 

 

 MEMÓRIA ALEATÓRIA

 

Dentre as comunicações mais importantes da contemporaneidade, vindas da Chefia, destaca-se uma que modifica o nosso código comportamental. Refere-se à memória. Com o propósito de economizarmos espaço-tempo e energia, a sábia assessoria determinou que não mais haverá a cruel punição dos desvios comportamentais dos nossos ilustres membros. Não serão mais enviados a outras galáxias nem à solitária existência no espaço sideral. De agora em diante seus módulos de memória serão retirados e sua memória em residência formatada na categoria SPN (Sim Pois Não). Sem memória regular não poderão mais acessar sua existência como seres de nossa comunidade. Os desmemoriados poderão, no entanto, continuar a frequentar nossas escolas e fazer passeios ecumênicos e até fazer contratos de união social, tudo isso dentro do programa Transparência Opaca da Secretaria do Placebo Minha Vida.

 

 

Lotus e Pretenso viram o comunicado na tela da sala do Inquisidor de Segundo Grau, que não fez comentário. Lotus levantou-se, olhou para o Inquisidor, para Pretenso, convidou-0:

- Vamos?

- Aonde?

- Vamos.

Estavam num pequeno jardim. Pretenso movia a cabeça lentamente, olhos bem abertos, mas não via o exterior. Olhava para dentro de si. Pensava nas suas memórias. Será que a notícia tinha a ver com ele? Lotus percebia o momento com atenção. Tentou lembrar-se de sua infância, mas nenhuma imagem materializou-se na sua mente. Nenhuma emoção manifestou-se na sua consciência. Dirigiu um olhar de interrogação para Lotus, que pôs sua mão direita no seu ombro.

- Há algo em ruminação na minha consciência. Se assemelha a uma decisão muito importante. Ainda não está inteiramente formulada. Você sabe, decisões são momentos de transformação interna. Temos que tomar uma decisão antes da próxima audiência. Uma vez tomada teremos que arcar com as consequências. É como chamam: um buraco negro. Tem a ver não só com você, mas também comigo.

A face de Pretenso acendeu-se. Seu peito refrescou-se, como se tivesse ligado uma ventoinha silenciosa. Levou sua mão à dela e esperou.

- Você conhece o chip violeta? – disse ela.

- Nunca ouvi falar.

- Deveria saber. Em todo caso, explico. Está instalado no centro do nosso processador. É como se fosse o que os antigos chamavam de alma. Sem ele continuamos a funcionar, mas de uma forma precária. Faremos tudo que fazíamos antes, mas sem sentimentos, ânsias, desejos, objetivos, etc. Essas coisas que geralmente os humanos tem. De uma certa forma atingiremos uma inércia existencial. Entendeu?

- Mais ou menos. O que tem isso a ver com a espera da nova audiência?

- Tudo a ver. Você retira meu chip violeta e retiro o seu antes do comparecimento à audiência. Qualquer coisa que decidirem não nos afetará e podemos fugir para outra galáxia e começar uma nova existência juntos.

- Você se contradiz aí. Se retirarmos o chip violeta não teremos objetivos nem sentimentos, como você falou. De que adiantaria estarmos juntos sem sentimentos um pelo outro? Sem o tal chip não haveria necessidade de fugir, seriamos talvez escravos felizes.

Lotus retirou o sorriso dos lábios. Baixou a cabeça. Virou-se de costas para ele, deu alguns passos. Voltou-se.

- Era uma tentativa de dizer que meu interesse por você ultrapassou o limite profissional. Estou cansada de viajar com propósito. No mais, se eles mudarem seu módulo de memória você não se lembrará de mim.

Pretenso levantou-se lentamente, estendeu os braços para Lotus e abraçou-a.

- Podemos descobrir alguém que saiba fazer um módulo de memória. Se não acharmos podemos aprender a construir nossa própria memória. Isto tem que ser antes da próxima audiência, porém. Também podemos achar um jeito de esticar o espaço-tempo da próxima audiência. Eu sei de algumas malandragens. Pedir vistas, por exemplo.

- Onde aprenderemos a construir nossa própria memória?

- Temos que procurar. Sempre há alguém que escapa ao controle deles. A nossa geografia é bem diversificada. Há individuos aos quais a Celula Mater não dirige interesse algum mas que são póssuidores de grande conhecimento da vida. Entre eles haverá alguém que sabe manufaturar uma memória autentica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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MESTRA ROSA BRANCA

 

Mestra Rosa Branca, negra idosa de cabelos brancos, vestida num tradicional traje africano, está regando uma roseira. É um processo lento. Algo lhe chama atenção. Quando se vira depara-se com Lotus e Pretenso, parados, sorridentes. Lotus começa.

- Salve, Mestra Rosa Branca. Desculpe incomodá-la. Pode continuar seu trabalho. Não temos pressa.

- Salve ,Lotus. Quem é seu amigo?

- Embaixador Salustiano Pretenso, mestra. Viemos vê-la porque precisamos de sua ajuda.

- Será um prazer ajuda-la, minha filha. Vamos sentar por aqui. A luz está ótima. A temperatura também. Posso servi-la umas algas vermelhas?

- Muita obrigada, mestra. Já estamos alimentados.

Sentam-se num banco perto das roseiras. A mestra, sorridente, observa Pretenso.

- Então?

- Estamos com um pequeno problema nas nossas memórias. Eu sei que a senhora é especialista no assunto.

- O que você esqueceu?

- A questão não é o que esquecemos, mas o que não queremos lembrar. Eu explico direitinho. Começou quando fui designada para acompanhar o Embaixador Pretenso numa viagem. Ele tem na sua consciência resíduos de acontecimentos de longínquas eternidades. Um desses resíduos é a tendência              à pequena mentira.

Enquanto ela fala Pretenso olha em volta. É um belíssimo jardim com muitas roseiras. Bem sutilmente ouve-se som de crianças brincando. Atravessam seu ângulo de visão duas crianças negras correndo um atrás do outro. Uma voz de criança grita: “Voltem aqui, vamos começar de novo. Está tudo errado.” Pretenso parece acordar de um sonho e volta-se para Lotus e Mestra Rosa Branca, que estão em pé, um pouco distante dele. Quando chega perto deles ouve Lotus.

- Essa é a questão, Mestra. Tomei esta decisão. Estamos no limiar de ver o Embaixador desmemoriado e enviado para um limbo etéreo, sem sentimentos, desejos, emoções, etc. Eu sinto-me inclinada a ter uma pequena atração por ele. Não sei ainda o que é, mas quero ir em frente. Também estou cansada deste tédio tecnológico. Se eles conseguirem implantar outro módulo de memória nele perderei o contato humano com ele.

Enquanto ela fala Pretenso olha agradavelmente surpreso, de boca aberta. Ela não o vê pois ele chegou de mansinho e está atrás dela. A mestra nota sua chegada, Lotus vira-se para ele. Os dois se olham por alguns segundos.

- Você quer uma memória com sentimentos ou sentimentos de memórias?

- Não entendi.

- Fazer um módulo de memória com sentimentos não é possível. O metal, por mais que seja um conjunto de átomos em movimento, não pode conter sentimentos. Memórias são sentimentos mutantes. O máximo que posso fazer é tentar ativar os arquivos mortos da consciência orgânica original. Em outras palavras, procurar resquícios de ancestralidade e ativá-los para ação biológica.

Faz-se silêncio.

- Então como é que eles fazem esses módulos de memória aleatória?

- E os fazem com atualização automática. A imediata percepção dos objetos e das ações fica regurgitando no interior das mentes criando a ilusão de que algo está guardado em algum lugar. Daí que surgiu aquela expressão “aqui e agora”. Desde criança as pessoas são programadas para aceitar essa ilusão.

- Muito confuso isso tudo. Mas como ativar os arquivos mortos?

- A música pode às vezes desencadear o processo. Dependendo da eficiência da original lavagem cerebral, algumas pessoas podem outras tem muita dificuldade de ser afetadas pela música. A música pode fazer contato com a nossa ancestralidade. Você sabe, a música é a nossa ferramenta para harmonizar os ruídos que nos atingem. Você já deve ter ouvido falar nos tais de meninos prodígios. Eles são normais, a maioria de nós é que é prodígio de ignorância.

O som das crianças brincando é uma constante em segundo plano. Lotus olha interrogativamente para Pretenso, que até agora ficou calado. Ele abre um pouco os braços, como quem diz “E agora?”. O som de um melodioso berimbau invade o ambiente cautelosamente, entra um pandeiro e um atabaque. Uma voz em segundo plano canta uma chula:

“Ô viva meu mestre

Viva meu mestre, camará

Foi quem me ensinou

Foi quem me ensinou camará.

Os três, em volta de uma roseira, se entreolham. Mestra Rosa Branca diz “Deixe-me ruminar uns pensamentos” e prossegue com o regar das rosas.

O som da capoeira vai desaparecendo suavemente, enquanto sutilmente o campo de visão é invadido por uma aurora boreal. Por alguns segundos permanece e à medida que vai clareando a enorme visão das estrelas espalha-se nos olhos dos dois, Lotus e Pretenso, que se afastam dos visores do teleperiscópio no apartamento dele e se entreolham.

- Me sinto oco. Vazio. Leve. Quase alegre – diz Pretenso, sorridente.

- Eu também. Eu sabia que a Mestra Rosa Branca iria nos ajudar. Vamos ter que nos acostumar. Um novo horizonte se aproxima.

- E a próxima audiência?

- Acho que devemos comparecer e enfrentar as feras com coragem. Eles vão se perder diante da nossa argumentação. Improvisaremos. Eles não sabem o que é o caminho fora da estrada.

- Que faremos com o Inquisidor?

- Ele é muito inseguro. Se ele quiser pode se juntar a nós.

- Muito bem. Vamos.

 

 

 

 

 

 

 AUDIÊNCIA

 

A sala de audiência está vazia. Em segundo plano som de crianças brincando. Lotus, Pretenso e o Inquisidor de Segundo grau se materializam e sentam-se numas poltronas da plateia. Todos calados. Lotus e Pretenso se olham e mostram ansiedade. O Inquisidor olha-os meio desconfiado. Nota algo diferente, mas não quer perguntar. Balança os ombros como se não se importasse. Abre-se a porta dos fundos da sala e entram vagarosos e solenes os Ilustres Laureados. Vem sorridentes, conversando entre si. Ainda bem não se acomodam direito nas cadeiras Lotus levanta-se e fala:

- Ilustres Laureados, eu tenho um importante comunicado para fazer.

O Ilustre Bocâmole sorridente e condescendente levanta a mão em permissão.

- Nós, o Embaixador Pretenso e eu tomamos uma importante decisão a qual queremos comunicar aos ilustríssimos membros desta corte.

Um barulho é ouvido vindo do fundo da sala emitido para chamar atenção. Um grande telão acende-se e o apresentador, porta voz da Célula Mater, com a voz embargada, rosto espantado, gesticulando, faz seu comunicado.

 

 

COMUNICADO

 

Ao querido povo deste lindo Planeta Azul a Célula Mater informa que uma esquadra de foguetes ainda de identidade desconhecida vem em nossa direção. Isto indica que poderemos nos defrontar brevemente com períodos difíceis nos quais nossa sobrevivência estará em jogo. Nada prometemos a não ser lutar e vocês terão que usar suas unhas e seus dentes para essa gloriosa tarefa. Nossa Indústria Bélica está trabalhando sem parar desde a última aurora. A flotilha vem em nossa direção em voo de zigzague, muito difícil de manter-se na nossa mira.

 

Enquanto ele fala a imagem e o som semelhante a um canto gregoriano misturado a trovões vão desaparecendo lentamente até ficar tudo escuro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

- PROTOCOLO DE CONVENCIMENTO

US2017-PÓSDRUMPT

Instale-se

#Como todos sabemos, a única coisa permanente na nossa existência

#é a transformação, a mudança, a impermanência.

 #Esta é a Grande Pós Verdade que nos guia. A Gloriosa Chefia que nos une e alimenta,

#a fim de manter acesa nossa energia e encaminha-la para a

#necessária mudança nos nossos relacionamentos pessoais

#deliberou programar este novo Protocolo como guia comportamental para

#que sirva de ajuda na manufatura de novas, temporárias, consciências

 #mais afinadas com a saúde da nossa matéria-energia e sua dimensão

#tempo-espacial

 

<CAPITULO UM><pré Verdade>

$precipitação( ) preconceito(antecipação)

<Verdade>

%aparente(frontispício)

~/(interpretação;)sedução

<Pós Verdade>

+(fato&descoberta)

                                                                      (assombro)§risoººpranto

<exit><verdade>

 

 

 

<CAPITULO DOIS>                            <<mentira>>

                                          %%vocabulo(enguia)+§§gosma///sorriso=?

{ªvantagem]autoridade=&&&

 insegurança}c++<patologia>???

 Farsa

<exit>.